
É a sincronia das infinitas possibilidades e das remotas probabilidades, do acaso, do milagre e do desastre. É a extravagância do big bang; a microscópica plenitude da concepção; o átimo de eternidade onde se dão os encontros.
Timing é a proteção do acaso; a centelha da revelação; o vislumbre do abismo; a conspiração cósmica, o deboche do diabo, o sorriso dos deuses. Timing é olho no olho, o encontro com o estranho, o sinal aberto ou fechado, o caminho depois. É o sopro que mesmo invisível é percebido como ventania; é o leve ondular do sangue na veia; o arrepio na pele; o calor no sexo.
Timing é ausência ou suspensão, ou quem sabe apoteose do tempo que pára por uma fração impossível que só a intuição ousa sentir. É a supressão da marcha implacável, é a recriação, é o breque da bateria, é o suspiro e não a respiração, é a breve lembrança do sonho antes que dele se esqueça, é o despertar, qualquer despertar, o sorriso da sorte, o vôo fugidio da esperança, é flash, relâmpago, susto.
Timing é o suspiro do tempo, sutil, imperceptível, terrível e cruel; é a cauda do cometa, o eclipse, a explosão; é pororoca, espanto, encanto. Timing é o trem certo passando em velocidade inédita, parando inexplicavelmente, fazendo um convite irrecusável, mudando destino, caminho, olhar. Timing é entrar ou não no trem e redesenhar o futuro.
Timing é a vida se recriando, respirando, expandindo; é o fugaz que se materializa, fugazmente; é o brilho do ouro do sábio, o ouro que não se acumula, o ouro que está além do arco-íris, no fundo da alma, por detrás da íris.
Timing é tudo; é a possibilidade do milagre; a fatalidade da tragédia; é o rastro da felicidade ou do desastre; é o que se desnuda ou o que se veda entre o piscar de olhos e a revelação ou a cegueira; é o deleite do toque ou a esterilidade da separação; o estorvo da palavra ou o conforto do silêncio.
É o leque de escolhas, decisões, ímpetos, desvios, sins e nãos, que se sucedem inesgotavelmente enquanto o tempo pulsa e a vida segue inclemente seu curso.
Timing é o ponto antes da ponte ou do precipício; é a escolha entre o vôo e a vida; entre o abismo e a sanidade. Timing é fruição, fluidez, pulsação; é inclemência e danação. É permissão, contentamento, sincronicidade; é impulso criativo, intuição, sabedoria inocente, fé e punição; desacerto e desatino; entrega e violação.
Timing é a bala perdida no peito desavisado; é o raio que parte; a curva fatal, o gol, a casca de banana, o telefone no meio da noite, o delírio do terrorista, o êxtase do santo. É tudo o que acontece ou não, perceptível ou não, e muda o curso da sorte, do sangue, do riso, antecipando amores, separações, descobertas, criações, fatos.
Timing é a guerra, a trégua, o agente laranja, a granada, a medalha no peito do herói, o quarto vazio do filho. É o fatal, o banal, o cômico, o romântico, o prosaico; o tombo na rua, o pivete no farol, a pane no motor, o tumor, o vírus oportunista, o verso perfeito.
É você e a humanidade, no meio dos acontecimentos, de passagem ou não, respirando o hálito de Deus, ouvindo a roda da fortuna ranger, o rufar dos tambores dos homens, o soar das trombetas dos anjos. É você e a humanidade, no meio da roda, consciente ou não, testemunhando a fragilidade, a inexorabilidade, o inevitável.
Timing é a vida e tudo o que acontece, estando você atento ou não, entre diminutas eternidades, vírgulas, exclamações e reticências do texto cósmico da breve história de todos nós.
Hilda Lucas, baiana de Ilhéus, advogada formada pela UERJ, dois livros publicados, tem duas manias irremediáveis: gostar das palavras e de gente.
:: E para você: o que é timing?