Os chineses inventaram e os italianos imortalizaram o prato mais amado do planeta.
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Às palavras me acordam à noite, me tiram da cama, acendem a luz e pedem forma. Sedutoras, insinuam-se em meu pensamento distraído e tomam conta de tudo. Esperneiam na minha cabeça, me tiram o sossego, me devoram. Exigem liberdade, querem nascer, sair do limbo, da imobilidade do dicionário. Querem ter casa, comida, livros para ler e espelhos para descobrir suas mil faces. Querem minha alma, e, rendida, digo sim.
Maravilhosas, me dão asas de anjo e olhos de poeta. Impacientes e mal-criadas, reivindicam tinta e papel, cores e nomes, imagens e metáforas na sua avidez de ser mais que apenas letras. Traiçoeiras, me fazem ameaças, prometem devassar minha vida e varrer meus porões. Sorrateiras, me surpreendem no meio dos jantares formais e das conversas chatas e ficam se exibindo de longe, provocantes e insubordinadas, desviando minha atenção.
Inconvenientes, me cutucam nas salas de espera, me atropelam nos engarrafamentos e me desnudam nos sonhos. São pequenas déspotas que se impõem à força e exigem meu tempo. Vampiras sedentas, sugam meu sangue e me prometem a imortalidade. Santas milagreiras, redimem meus erros, iluminam os becos da minha tristeza, espantam fantasmas e abrem janelas. Misericordiosas, me apontam a dor dos homens, a indignidade da fome, a brutalidade das guerras e me fazem provar a infâmia, o desamparo e sentir dores universais, porque as palavras me fazem olhar além.
Justiceiras, denunciam meus crimes, meus abusos, meus desvios. Inclementes, revelam meus medos e meus segredos, meus pecados e minhas penitências. Urgentes, elas me usam e me enredam em sua concepção, para depois aguardarem pacientes, gestação e corpo. Como num parto eu as expulso e elas passam através de mim, tocando-me com sua graça, seduzindo-me com sua dança, viciando-me como seu gozo.
Sou instrumento.
Desnudam a beleza escondida nas pequenas coisas, nos cantos, nas dobras, nos momentos fugazes, etéreos, eternos. Fazem meu coração doer diante de todos os indizíveis luares, intraduzíveis pores do sol e inomináveis deslumbramentos. Fazem-me sufocar em silêncios e mordaças diante das dores e violências impronunciáveis. Sim, por que às vezes, são elas que emudecem, trancam-se em lutos, escondem-se, eclipsadas pelo espanto.
Às vezes, elas se ausentam envergonhadas, devastadas por que não querem nomear as barbáries, as traições e as brutalidades. Outras vezes são sopradas pelo vento, pelos sonhos, pelo acaso como se fossem partículas soltas, que finalmente encontram paragem. Fazem-me calar quando estou em paz. E nesses momentos elas descansam, adormecem sorrindo.
Dispo-me a cada palavra escrita, desfaço-me dos mistérios, experimento outros rostos, outras vozes, outros tempos. Escrevendo expando, estilhaço, espicho, remendo e desdobro minha alma: sou muitas. Elas me tomam pela mão e me carregam numa vertigem para longe, para fora, para dentro, para cima e, à medida que as concebo, traduzo-me ou invento-me.
Fazem-me perceber os anônimos milagres de todo dia e a infinita sabedoria que não tenho. Fazem-me render graças por que me dão ofício, voz e a percepção da minha diminuta humanidade. Mas, acima de tudo e tão simplesmente, elas dão nome às coisas que eu amo.