Lucidez: palavra feita de sombra e luz, vem de Lúcifer, que é como os antigos chamavam o planeta Vênus e também o nome do anjo caído, rebelde, o bem-amado de Deus, o Príncipe das Trevas. Lúcifer quer dizer também luz que de tão forte é capaz de cegar. Lucidez é portanto uma luz aterradora e Lúcifer aquele que não resistiu a tanta lucidez.
Caiu por não suportar a revelação, por não agüentar nem o brilho nem a ira de Deus, por não aceitar ser criatura, que mesmo vivendo na luz não a detém. Tal qual Prometeu, Lúcifer ousou desafiar o Criador, quis para si a Sua luz. Não por soberba ou por inveja mas por amor, por sede de verdade, por lucidez. Dizem que Lúcifer só suporta o inferno porque se lembra da voz de Deus.
Só isso, apenas isso, torna seu sofrimento suportável. Mais que o paraíso foi-lhe negado o conhecimento e Lúcifer é condenado a viver na escuridão, na ausência do Bem, fitando eternamente a face resplandecente e toda a luminescência Daquele que tanto amou.
Lucidez dói e perturba, desnuda verdades, revela segredos e reduz os sonhos a imprudências. É muitas vezes insuportável, faz muitas vítimas. Pressupõe escolhas terríveis e despedidas dolorosas. A lucidez é radical, traz desassossego, tira nossa inocência e ri das nossas esperanças.
Nada é igual depois de exposto à luz. A trave do olho é retirada e a verdade não cega o sábio. As sombras depois de iluminadas se dissipam, se exaurem e tudo fica muito simples, sem mistérios, sem elucubrações, sem distorções. Tudo passa a ser comoventemente simples, como no começo dos tempos e na eternidade, quando o silêncio é ouvido e todas as respostas cabem nas nossas almas. Como diz o poeta: O grande mistério das coisas é que elas não têm mistério nenhum.
Coisa de louco, coisa de anjo malcriado e filho teimoso, a lucidez nos dá asas de chumbo e nos expulsa do paraíso. Traz no seu bojo danação e liberdade, solidão e sabedoria. Sim, é preciso cair dos céus fictícios. Mas não arderemos em chamas que não sejam aquelas dos nossos infernos pessoais, não vislumbraremos verdades gloriosas a não ser aquelas que nos identifiquem, não seremos castigados a não ser por nós mesmos, por covardia ou comodidade, não cairemos nas trevas mas nos nossos próprios abismos.
Coisa de herói, essa tal lucidez, que nos salva da ignorância, das tormentas da alma, dos labirintos da angústia, das ciladas da mentira não sem antes nos fazer atravessar a pior e mais longa das noites escuras para só então nos fazer desaguar em auroras e relvas frescas.
A lucidez é como um mago implacável que nos exige coragem e disciplina em troca de deslumbramentos, talismãs e novas asas. Sim, por que nossa vocação é voar, inventar nossos verdadeiros céus. Só então estaremos salvos e caminharemos pelos campos verdejantes onde nos refrescaremos e mataremos nossa sede em riachos límpidos e descansaremos, porque tudo estará quietamente claro, e a face que fitaremos não será outra senão a nossa própria, serena e conciliada.
A lucidez nos transforma em pastores de nós mesmos.