
“Ontem esqueci as chaves de casa no escritório e voltei para buscá-las. Eu nem lembrei que você morava aqui e que se eu tocasse a campainha você abriria a porta!” – contou-lhe o marido enquanto se barbeava.
Sentada à mesa ela olhava fixamente a impossível transcendência das migalhas de pão espalhadas sobre a toalha e o resto de café no fundo da xícara. Folheara o jornal sem nada ler só para manchar os dedos. Nos dias comuns, nos seus todos dias sempre tão iguais, ela terminaria o café da manhã e arrumaria a casa com diligência robótica, cataria roupas e objetos fora de lugar e script, esticaria os lençóis amassados de insônia e sexo mal feito, lavaria pratos de refeições silenciosas, esvaziaria cinzeiros e o lixo do dia. Mas aquele não era um dia comum.
Passou por sobre as folhas do jornal, leu que era uma quarta-feira. Saiu de casa sem fechar a porta, sem tirar a mesa, nem a camisola do corpo. Foi saindo num sair longo, largo, demorado. Era mais um desprender-se, descolar-se, desvencilhar-se. Enquanto saía via o quanto já estava longe e não percebera. Passou o dia num banco de praça. Alheia às crianças, aos cachorros, aos solitários, aos bêbedos, aos loucos.
Sabia de tudo o que tinha vivido até aquele dia. As cartas jogadas, os sonhos que vingaram, os que não aconteceram, as grandes e as pequenas alegrias, as juras quebradas e as promessas impossíveis de manter. As traições não consumadas, as pequenas grosserias, as frustrações, as raivas. Sabia do amor que murchou sem alarde, sem notícia. Sabia da cumplicidade, dos momentos sagrados. Pensou na paixão que acabou e que foi poderosa um dia. Pensou no afeto, no querer bem, na admiração perdida. Lembrou conversas adiadas, más criações, desatenções. Pensou que acertaram muito mais que erraram.
Nada era imenso nem trágico. Nada era vil ou odioso. Não era infernal. Não havia dolo nem culpa. Não havia gritos irados só silêncios desconcertantes. Não havia desrespeito só invisibilidade. Não havia drama só cansaço. Por delicadeza não brigaram, nem se magoaram. Por descuido não se alertaram. Por indiferença não se ofenderam. Tornaram-se desimportantes. Foram-se esvaindo. Foram-se evadindo. Não leram os sinais nem perceberam os sintomas. Não houve premeditação nem artimanhas. Era tudo subcutâneo, subterrâneo. Sonegaram dores e crises. Calaram tolices e fantasias. Não era raiva. Era só desamor. Nada pessoal. E a dor, passaria...um dia.
Era uma história igual a tantas outras. Solidão. Desgaste. Frustração. Cansaço. Era mais uma história comum, sem mistérios, sem transcendência. Quando voltou para casa ele já estava lá. Olharam-se longamente como convém a uma despedida solene. Falaram quase nada. Entendiam tudo. Enxergavam-se depois de tanto tempo invisíveis. Naquele momento quiseram-se um bem tão profundo quanto o abismo que se desnudara irremediável. Estavam absurdamente tristes e sós e não podiam ajudar-se mais.
Ela saiu do quarto enquanto ele arrumava a mala. Não sabia bem por que mas achou indecente observá-lo naquele instante. Não havia mais intimidade. Não quis saber o que ele levaria nem teve coragem de sentir o peso daquela mala. Foi silencioso como escrever “Fim” na última página de um livro. Foi definitivo como derrubar uma árvore. Foi difícil como nascer.
Separar-se é constatar distâncias. Ele saiu de casa num sair longo, largo, demorado. Era mais um desprender-se, descolar-se, desvencilhar-se. Enquanto saía via o quanto já estava longe e não percebera. Mas não era nada pessoal.