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Coluna de Hilda Lucas

O Dia em que o Futuro Começaria


20 de Julho de 1969. O futuro estava prestes a começar. Nada jamais seria como antes. O sonho impossível do homem, o mais louco e mais antigo, ia virar realidade.

Era o último dia do passado. Um dia que amanheceu inquieto, com frio na barriga. A ordem das coisas parecia ameaçada. Havia no ar euforia, maravilhamento, descrença e um certo quê de charlatanismo. Havia no ar muito mais que aviões de carreira. A imaginação de todos nós viajava num foguete. Videntes se pronunciavam, fanáticos anunciavam o fim dos tempos, cientistas esvaiam-se em explicações técnicas e a gente simples desacreditava.

Nós éramos jovens, indiferentes à história da humanidade, preocupados com nossas pequenas histórias, nossos primeiros beijos, nossos pequenos sonhos, nosso microcosmo, nossos umbigos. Éramos fortes e ávidos e nos sentíamos absurdamente vivos. Não precisávamos do futuro, só do viver, e mesmo assim sabíamos que aquele não era um dia como os outros. Valia uma celebração.

Seria noite de lua cheia. Combinamos fazer uma festa na praia. Tudo improvisado. Tocheiros, guaraná, cerveja, sanduíches, esteiras de palha. Pés descalços, cara lavada, cabelos longos, todos nós. A noite chegou com seu jeito imutável, soberana. Paramos os carros em círculo na praia, faróis desligados e todos sintonizados no programa do Big Boy, “A Mundial é Show Musical”. Dançamos na areia sob um manto de luar. O mar tinha um brilho metálico, parecia imóvel. Dormia. Johnny Rivers cantava “Summer Rain” e nós, entregues e livres, ríamos e nos deixávamos tocar, por música, lua e namorados.

Com a proximidade da hora, nos deitamos na areia, apagamos todas as luzes e ficamos imóveis olhando o céu, contando estrelas, pensando nos anéis de Saturno, nos discos voadores, em extraterrestres, na poeira cósmica, no cavalo de São Jorge e na face oculta de tudo. As estrelas pareciam despencar do firmamento e o luar abraçava tudo, nossos corpos, nossa juventude, as folhas do coqueiral; entrava impunemente pelas janelas e portas, brilhava nos copos vazios, no vinil dos discos, nos capôs dos carros. Caía sobre nós como bênção e adentrava nos olhos como rio. À nossa frente, o mar era tranqüilamente lunar.

De repente a música foi interrompida e nós ouvimos incrédulos a voz emocionada do locutor: “Senhoras e senhores, a Apolo 11 acaba de pousar na superfície da lua! Neil Armstrong é o primeiro homem a pisar em solo lunar. O homem está na lua e a Terra está em festa!”. O tempo ficou suspenso. Depois outra frase: “Collins e Armstrong brincam e dançam na lua!”. E, por fim: “O homem está mais perto de Deus!”, proclamou transido e crente o radialista.

Por instantes a lua pareceu diferente, mais nua, mais perto, meio triste, menos lua. Sabíamos que aquilo era História e que naquela noite a nossa história se diluiu na história da humanidade. E nós olhamos à nossa volta como se fosse a primeira vez, procurando imediatas transformações, sinais inequívocos do futuro.

Nada.

A música recomeçou e nós voltamos às nossas pequenas órbitas. Voltamos a brincar e a dançar como fazem os meninos e os astronautas.
O futuro imaginado nunca aconteceu. Carros voadores, robôs falantes, casas em Júpiter, escolas interplanetárias nunca foram construídos. O futuro metálico e ingênuo dos Jetsons sucumbiria ao de Blade Runner e Laranja Mecânica.

O dia seguinte amanheceu igual aos outros. Nada mudou, a Apollo 11 foi parar num museu e eu nunca mais dancei na areia, sob o luar...
 


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06/08/2008 - 19:58



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17/06/2008 - 22:31



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10/06/2008 - 21:38