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Capítulo 1
Quando meu marido morreu e me vi com três filhos para criar, não tive dúvidas: usaria nossas economias para abrir um restaurante por quilo. O curso de chef de cozinha que eu havia feito anos antes, por mero hobby, finalmente se tornaria útil. Com a ajuda de alguns amigos e de papai, montei o estabelecimento. Sabia que a concorrência numa cidade como São Paulo era violenta, mas intuía que eu poderia encontrar meu espaço, meu lugar ao sol.
O começo foi complicado. Inexperiência, insegurança... Mas persisti e logo colhi os frutos do meu suor. Um prédio de escritórios inaugurado na esquina da rua do restaurante garantiu a clientela, cativada pela minha criatividade, que me permitia elaborar pratos econômicos. E eu caprichava! Fazia questão de ver minhas saladas muito bem enfeitadas com legumes coloridos.
Não abria mão de servir sucos 100% naturais em lindas jarras de cristal e oferecia sempre algum prato típico de um longínquo e exótico país. Não que eu me dedicasse tanto só por mero profissionalismo. Sabe, o trabalho transformou-se na minha terapia. Eu o usava para esquecer a ausência do meu marido e o imenso vazio que sua partida deixara.
Naquela época, todas as vezes em que me via de folga, longe da cozinha, eu chorava. Quantas e quantas vezes, sentada de madrugada na sala de minha casa, com os pequenos já em suas respectivas camas, eu desatava num choro profundo. Quase incontrolável. Bastava olhar as fotos de Edson para as lágrimas me virem aos olhos. Nesses momentos, recorria a uma alternativa lamentável: tomava calmantes. Muitos deles.
"Clara, você está bem?", preocupou-se uma das ajudantes de cozinha, no dia seguinte a um dos meus surtos de saudade. Eu tinha olheiras e exibia nítidos sinais de cansaço. Neguei qualquer problema. Não queria me abrir nem com ela nem com ninguém. Não me sentia confortável em revelar a quem quer que fosse o que se passava dentro de mim: a explosão de todo aquele medo solitário e um desejo absurdo de fugir de tudo e todos.
Mais tarde, soube que uma das garçonetes engravidara de um motoboy. Lembro-me direitinho como me colocou a par do fato. "Dona Clara, quando eu vi já tava grávida. Ele prometeu que ia tirar na hora H, mas não tirou", falou, timidamente. Eu gostava muito daquela menina e por isso não consegui conter um discurso. "Vocês transaram sem camisinha? Como fizeram isso?", perguntei, em tom severo.
"Olha, você poderia ter pego alguma doença. Menina, há quanto tempo você namora esse menino?", insisti. "Três meses!", respondeu-me num muxoxo, de cabeça baixa. Fiquei em silêncio enquanto tentava controlar minha indignação. "Bem, vou lhe dar todo o apoio possível, mas não posso deixar de alertá-la quanto à sua atitude irresponsável", falei, já mais cordial.
Eu e Edson planejamos nossos filhos. Engravidei dos três num pequeno intervalo de tempo. Queríamos que crescessem com idades parecidas para que pudessem aproveitar a vida juntos. Ninguém imaginava que, enquanto fazíamos planos, seu sistema imunológico estava conspirando contra ele. Ninguém jamais imaginou que, enquanto eu sonhava ter a família mais sólida do mundo, meu amor morria.
Capítulo 2
Com a saída da funcionária grávida, pus anúncio para achar outra garçonete. Nas semanas seguintes, entrevistei várias mulheres e alguns homens que se candidataram à vaga - apesar de eu preferir garotas para o cargo. "Eu me chamo Fernando!", falou aquele moço de estatura média e olhar terno. O currículo dele era bom: experiente, havia trabalhado por muito tempo no estabelecimento de uma conhecida minha, que não poupava elogios à sua postura e eficiência. O salário que ofereci também não pareceu desmotivá-lo.
Eu estava ciente da importância de ter um bom braço direito no restaurante. Apesar de os clientes servirem os próprios pratos no bufê, essa pessoa me ajudaria a oferecer as bebidas, as sobremesas e também a organizar o salão. No final da seleção, fiquei com três fichas na mão: a de duas moças e a de Fernando. "As meninas me parecem tão boas, mas por que não testar um rapaz num ambiente tão dominado pelas mulheres?", cogitei, bem-humorada.
Eu mesma liguei para Fernando. Não estava. Deixei recado e, cerca de duas horas depois, retornou. "Desculpe-me, estava na casa de uns primos. Quando posso ir aí, d. Clara?", perguntou. Marquei para o dia seguinte, à noite. Chamei uma outra garçonete a fim de que me ajudasse a explicar o serviço para ele. Quando chegou, vestia uma calça e uma camisa social muito bem combinadas. Chamou minha atenção o brilho de seus sapatos. Parecia que ele havia passado uma madrugada inteira lustrando-os. Com facilidade assimilou o fluxo do cotidiano.
No primeiro dia de trabalho repetiu todo o esmero. Bem-vestido, cheiroso - as meninas da cozinha ficaram atiçadas - e com uma educação que impressionaria qualquer um. Inclusive eu, claro! E haja eficiência! Levou os refrigerantes às mesas com rapidez, soube indicar as sobremesas e detalhá-las aos clientes e, com polidez, limpou mesas e recolheu bandejas.
Foi um turno particularmente agitado. Era quarta-feira, dia de feijoada. O movimento sempre ficava maior. Mérito da minha cozinheira, dona Tutu. Ela havia desenvolvido uma receita especial que deixava todo mundo com água na boca. Trabalho encerrado, juntei-me ao pessoal para almoçar. Eram 16h. Ao contrário de nós todas, tagarelas, Fernando comia em silêncio.
Durante a refeição, por duas ocasiões eu o notei me observando de maneira discreta. Numa das vezes, nossos olhares se cruzaram e eu sorri meio sem graça. Na verdade, não sabia por que havia me sentido tão constrangida. Afinal de contas, eu era a patroa e Fernando, o empregado.
Horas depois, salão limpo e pronto para o dia seguinte, fomos todos embora. Na saída, vi Fernando no ponto de ônibus, sozinho, lendo um livro. Fiquei com uma tremenda vontade de parar o carro e oferecer uma carona. No entanto, não me sentia confortável para fazer isso. Tinha receio de que essa intimidade pudesse, de alguma maneira, prejudicar o trabalho. Acelerei o automóvel e segui para casa.
Pelo retrovisor, fiquei observando o rapaz até que sua imagem desaparecesse. Naquele momento inusitado, algo me chamou a atenção: seus olhos. Eles estavam fixados em mim, como se pudesse ler meus pensamentos. Dormi aquela noite com essa imagem na cabeça. Quer dizer, tentei dormir...
Capítulo 3
Daquele dia em diante passei a observar Fernando com atenção. Pontual, sempre elegante, falava pouco. E de uma eficiência exemplar. Diferente dos outros empregados, não se distraía nem fazia fofocas. Tantas qualidades só me traziam uma certeza: se ele tivesse defeito, devia ser grave. "Fernando, por favor, me ajude com essas caixas aqui!", pedi, no fim do expediente daquela sexta-feira. Havia recebido uma remessa de bebidas e precisava guardá-las no depósito. Nada melhor do que um homem para ajudar com tão árdua tarefa.
Enquanto ele carregava as bebidas, pensamentos nada castos tomaram minha cabeça. Sensações que não provava desde a morte de meu marido. Pudera: o corpo de Fernando era ótimo. Nem magro nem gordo. Pêlos brotavam de seu peito e se exibiam harmoniosamente pela abertura da camisa. No maxilar, costeletas transmitiam uma imagem viril que me excitava ainda mais. A reação dos músculos ao esforço de segurar as caixas e as gotas de suor que desciam delicadamente pelo rosto quadrado começaram a me tirar do sério.
Só percebi que estava fora de controle quando ouvi a voz dele. "Dona Clara, já terminei!", murmurou, olhando meio espantado para mim. Nesse momento me dei conta do quanto estava vermelha e suada. Disfarcei e fui até a porta do restaurante. "Ok, até amanhã, então", despedi-me, ainda confusa quanto às minhas reações. Fernando, como sempre, saiu todo respeitoso. Fechei a porta. Respirei fundo por alguns segundos e abri de novo. Pela janela, observei-o se afastar lentamente. Ah, como eu queria ter a coragem de gritar para que voltasse!
Imaginei a cena toda: ele voltando, fechando a porta com força e me arrastando até o fundo do depósito. Mal teríamos tempo de tirar a roupa e ele me possuiria. Como se eu fosse a mulher mais linda e desejável do mundo! Após o orgasmo, ficaríamos grudados, fazendo planos e falando bobagens como todo casal apaixonado. No mundo real, porém, ele partira... E eu, como sempre, fui para casa sozinha.
No dia seguinte, percebi que não conseguiria mais encarar Fernando com os mesmos olhos de antes. Despertara em mim um intenso desejo de experimentá-lo fisicamente. Talvez até mais do que isso: de senti-lo espiritual e emocionalmente. Lembro do meu esforço gigantesco para não perder a concentração durante o expediente. Receava que as funcionárias notassem minha queda pelo único homem da equipe e eu virasse alvo de chacota. "Linda blusa, Clara! Adoro peças curtas", comentou a cozinheira. Pronto, ela havia notado minha mudança!
No final do dia, passei pelo ponto de ônibus e lá estava ele. Num impulso, parei o carro. "Quer carona? Vou passar perto do metrô." Com ar tímido, ele aceitou. Entrou no veículo em silêncio. O trânsito estava intenso, chovia forte e as janelas estavam embaçadas. "Você é casado?", perguntei, de repente. Ele sorriu. "Sou", falou. Em seguida, abriu a carteira e, orgulhoso, mostrou uma foto. "Essa aqui é a Aninha, minha patroa, a mulher da minha vida", disse, todo prosa. Disfarcei e olhei para frente. "Ela está grávida e estou muito feliz", completou. Forcei um sorriso, deixei-o na estação e observei a minha esperança de amar novamente ir embora com ele.
Capítulo 4
Uma semana após descobrir que a mulher de Fernando estava grávida, tomei a atitude mais maluca da minha vida. Uma mistura louca de solidão, desejo e carência me impulsionou a fazer o que fiz. "Fernando, preciso buscar uns congelados na minha casa. Você pode me ajudar?", falei, tentando parecer casual. Ele fez sinal positivo. "Depois do expediente?", prossegui. Ele concordou de novo, mas, dessa vez, eu o senti um pouco tenso com tudo aquilo.
Mal consegui me concentrar no trabalho durante o dia. "Estou pronto"!, ele anunciou ao fim da tarde, logo após arrumar o salão. Sorri. No carro, dirigi em silêncio. Meu funcionário parecia meio incomodado, mas lutava para não deixar transparecer isso. "Chegamos", falei, estacionando o carro na garagem. Fernando olhou ao redor como que tentando reconhecer o lugar. O cheiro da colônia dele estava me deixando maluca. O olhar brilhante e as mãos suadas me excitavam. "O que faço agora?", pensava, enquanto abria a porta com ele logo atrás. Ora, não havia congelado algum na minha casa!
Pedi que me esperasse na sala e voltei da cozinha com dois copos de refresco. "Calor, né?", comentei, enxugando o suor. "Onde estão as coisas?", perguntou, de repente. Num impulso, caminhei até ele. Fiquei bem próxima, encarando-o. Fernando ficou me olhando também. Sutilmente, encostei nossas mãos. Ele deixou. Seus olhos brilhavam. Levei as mãos do rapaz até meus seios. "Meu Deus, o que estou fazendo?!", pensava ao mesmo tempo que o seduzia.
Ele me apalpou com carinho. Invadiu meu decote com seus dedos e me tocou sob a blusa. Senti um calor intenso. Desabotoei sua camisa e o abracei. Ele também estava excitado. Nossa respiração havia se tornado ofegante. Fizemos amor no chão. Nenhuma palavra foi dita. Ele me possuiu em silêncio. Havia em seus gestos um vigor de desejo. Nos meus, um misto de desespero e tesão. "Por favor, Fernando, continue...", gemia, enquanto ele abria minhas pernas e me penetrava. Era mais do que sexo. Era a salvação da minha tristeza.
Nossos corpos tremeram ao mesmo tempo. Minhas unhas arranharam suas costas e ele acelerou seus movimentos. Tínhamos terminado nosso sexo. Ele se deitou ao meu lado. Eu permaneci em silêncio. Tive vontade de dizer que o amava. Finalmente, ouvi sua voz. "Preciso ir!", disse, levantando-se apressado. Antes que eu tivesse tempo de oferecer uma carona de volta, ouvi a porta batendo. Não houve papo, promessas de amor ou nada disso.
No dia seguinte, Fernando agiu normalmente, como se nada tivesse acontecido. Esse comportamento me incomodou. "Como ele consegue reagir com tamanha frieza?!", pensava, enquanto pesava os pratos dos meus clientes. Por dentro eu era pura tensão, insegurança e receio do que pudesse estar por vir. Naquele mesmo dia, no depósito das garrafas, transamos de novo. De novo, nada dissemos. Mas o sexo foi ainda mais intenso. Já não conseguia disfarçar a necessidade que tinha de senti-lo junto a mim, mesmo sem saber o que ele realmente queria de mim ou o que planejava com toda aquela situação.
Capítulo 5
Não quero me separar da minha mulher", anunciou Fernando naquela chuvosa noite de terça-feira, enquanto eu o levava de carro até o metrô. Há duas semanas, esperava uma palavra dele, que até então insistira em se manter mudo, tratando-me como se nada houvesse acontecido. O objetivo da carona era obrigá-lo a falar sobre nós e, a princípio, estava dando certo. "Amo minha esposa e não pretendo abandoná-la", repetiu, sério, de cabeça baixa, sentado desconfortavelmente no banco do passageiro.
Eu não conseguia olhar para ele. Minhas mãos tremiam no volante, como se estivessem prestes a explodir. Sentia meu pescoço tenso. Por mais esforço que fizesse, não pude encarar o homem pelo qual havia me apaixonado. Então, veio o silêncio. Tétrico, entrecortado pela nossa respiração pesada e um ou outro trovão.
Os vidros do meu carro começaram a embaçar. "Temos um filho, construímos uma família", insistiu Fernando, como se eu fosse sua terapeuta particular, pronta para resolver qualquer problema familiar. Ora, não mesmo! Quem estava ali, totalmente descontrolada, era eu, Clara, uma mulher carente. A chuva aumentava na mesma proporção que minha confusão mental. Dentro de mim, ódio, autopiedade, amor e rancor se misturavam num frenesi bombástico e perigoso. Aliás, muito perigoso.
Decidi, então, soltar a minha ira. Havia pensado num texto para destrui-lo. Começaria com algo do gênero "você me usou" ou talvez "você só buscava sexo mesmo e eu fui a maior tonta, não percebi". Meus dentes rangiam. Queria vomitar sobre ele as minhas frustrações amorosas, desabafar coisas que Fernando nem imaginava a meu respeito. Estava pronta para dizer que, antes de Edson morrer, eu havia descoberto que ele transava com uma amiga minha.
Sim, ia contar tudo e, quem sabe, ter alívio! De repente, um clarão tomou conta do carro e me impediu de emitir qualquer som. Após um forte estrondo, digno de filme, desmaiei. Antes, porém, vi Fernando coberto de sangue por causa da colisão com um outro carro que vinha na contramão.
Demorei cerca de uma semana para reabrir os olhos. Meus filhos estavam ao redor da cama quando despertei. "A mamãe voltou!", comemoraram alegres ao me ver viva. Eu os abracei e chorei. Na minha cabeça, apenas um enorme vazio. A enfermeira afastou as crianças de mim. "A visita acabou. Agora, dona Clara precisa se recuperar", ordenou, conduzindo-os à porta.
Dei um tchau tímido e recostei novamente a cabeça no travesseiro. Então, como que num delírio absurdo, gritei: "Meu Deus, onde está o Fernando?!". A enfermeira, que estava arrumando os tubos de soro, se aproximou da cama. "Calma, você não pode ficar assim!", pediu. Como eu gritava histericamente, injetou-me algo e logo adormeci. Fernando estava no sonho que tive naquela tarde. Vestia uma roupa de linho branco e trazia um sorriso feliz. Ao me ver, abraçou-me e me deu um beijo carinhoso. Suada, despertei horas depois, com uma pergunta martelando minha cabeça. "Será que ele morreu?"
Capítulo final
Acordei zonza, confusa. Não sabia por quanto tempo havia dormido. "Mamãe, a senhora está melhor?", perguntou minha filha do meio. Respirei fundo e sorri. Uma enfermeira que estava próxima à cama me entregou um pedacinho de papel dobrado. Com esforço eu o abri. "Estou bem, com minha mulher tomando conta de mim no quarto ao lado do seu", dizia o texto, escrito com a letra de Fernando. Meus olhos se encheram de lágrimas. "Sim, ele está vivo!", murmurei, sem ligar para os ouvidos curiosos das pessoas presentes no recinto.
Demorei três dias até poder me levantar. Aproveitei uma distração da enfermeira e, carregando o soro comigo, deixei o quarto. A passos lentos, cheguei à porta ao lado. Pelo vidro, eu vi Fernando na companhia de uma mulher baixa e magra. Com uma mão ela acariciava a testa dele e com a outra amparava firme seu braço. O olhar dela mesclava tristeza e alívio. Parecia ressentida. Vi quando ele passou a mão na barriga da mulher, que sorriu e chorou. Senti-me estranhamente confortada e voltei para a cama. Fernando estava vivo, ao lado da mulher que amava e lhe daria um filho.
Recebi alta uma semana depois. Enquanto arrumava minha mala, ele entrou. "Você está bem?", perguntou, sem se aproximar. "Estou ótima, e você?', respondi, tentando não transparecer minha imensa ansiedade. Surpreendentemente, ele me abraçou. Junto ao abraço, lágrimas. Nunca havia visto um marmanjão daqueles chorar tanto. "Desculpe, não queria te magoar!" , murmurou. Lógico que eu já estava aos prantos também. "Não há nada a perdoar. Eu é que quase te matei", falei, em tom de brincadeira.
Ele se afastou. "Não quis ferir seus sentimentos. Você é atraente e adorei o que tivemos. Há alguns dias, contei para minha mulher sobre nós e ela entendeu. Ela me perdoou e nunca mais a trairei!", disse, remetendo-me ao dia em que os espiei no quarto dele. Embora houvéssemos trocado telefones, Fernando nunca mais me ligou. Sumiu da minha vida como um meteoro desaparece no meio de uma chuva cósmica. Nunca ligou ou mandou uma carta. Simplesmente, sumiu.
No fundo, foi bom. Aquilo me ajudou a esquecê-lo. O tempo realmente demonstrou ser uma ferramenta das mais poderosas para resolver paixões mal-resolvidas. Acabei contratando uma moça para substituir Fernando no restaurante. Seu nome era Rosenilda. Garota simplória, mas muito trabalhadora. Com a ajuda dela e das outras funcionárias, consegui, aos poucos, progredir e aumentar ainda mais as instalações.
Três anos se passaram desde o acidente. Meu restaurante ficou enorme. Aluguei o imóvel ao lado e montei também uma doceria e um café. Com isso conseguia maior lucro, o que possibilitou pagar melhor meus funcionários e dar ótima qualidade de vida às crianças - já não tão crianças assim! Continuei mãe solteira. Vez ou outra flertava com algum cliente e desfrutava de deliciosas noitadas de sexo e cumplicidade. O tempo e a maturidade haviam me trazido uma segurança que nunca tinha experimentado: a de saber viver só, sem esperar por um homem com quem supostamente viveria para sempre. Pensando bem, não era mais isso que eu queria...